sexta-feira, 23 de abril de 2010

mark rothko, thom yorke e algumas impressões




Mark Rothko, Untitled, 1949
(pintura retirada de: http://oseculoprodigioso.blogspot.com/2007/03/rothko-mark-expressionismo-abstracto.html - mais de Rothko no link)




Não consigo me esquecer de uma entrevista concedida por Thom Yorke em que ele comenta sobre como se misturam a vida e a obra de um artista, e como isso pode causar uma diferença na recepção da obra, dizendo: “É igual à literatura e à arte. Muitas vezes se confunde a personalidade com a pessoa, a personalidade com o trabalho. No final, não é proveito para ninguém. De certa forma isso renega a obra, também, porque o que pode acontecer é que, se você é um artista, como Rothko, por exemplo, e resolve se suicidar, isso vai se incorporar à obra para sempre. Pessoas entram na sala de Rothko, na Tate Gallery, em Londres, as crianças gritam: “Uau! Que máximo!”, e só vêem a alegria das cores e dos quadros, enquanto os adultos só vêem o pobre coitado que se matou.”


Não, meus caros, Thom Yorke não é crítico de arte, é o letrista e vocalista da banda Radiohead (na minha modesta opinião, um dos melhores acontecimentos musicais dos últimos vinte anos), mas estudou Literatura e Artes Plásticas na Universidade de Exeter, onde conheceu sua companheira Rachel Owen (http://www.rachel-owen.co.uk/maingallery.htm) que é artista plástica com PhD em História da Arte com pesquisa sobre as ilustrações para a Divina Comédia de Dante Alighieri. Thom Yorke assina suas criações visuais com o pseudônimo Dr. Tchock (ele mesmo não confirma essa informação), em colaboração com Stanley Donwood (responsável pela arte da banda, como a incrível capa de “Hail to the Thief”, vale a pena conferir: http://www.iguapop.net/artists/donwood.html#).


A questão é que o comentário do frontman da banda Radiohead me fez pensar, ainda mais do que já venho pensando, na obra e na vida de Mark Rothko, e gostaria de tocar em alguns pontos.


Mark Rothko (1903 – 1970) é geralmente incluído dentro do rol de artistas do Expressionismo Abstrato, estilo que ficou conhecido pela radicalização de alguns processos das vanguardas históricas e principalmente pelas marcas gestuais na pintura de Jackson Pollock com o seu método de lançar a tinta sobre o quadro sem o toque do pincel na tela, mas sim controlando seus respingos (dripping). A obra de Rothko se diferencia bastante da de Pollock, embora seja possível se pensar em uma congruência quando se fala das primeiras experiências de cada um (com formas que me parecem uma criativa assimilação de Kandinsky e Picasso), mais tarde eles vão se envolver com pesquisas estéticas que são completamente individuais e até mesmo opostas. Talvez seja mais adequado falar em New York School, como um círculo artístico que surge na década de 40. O próprio Rothko rejeitava a classificação de expressionismo abstrato para suas obras, e era contrário a “action painting”. Sua pesquisa se aproximava mais da pintura Color Field, trabalhando com campos de cores, o que vai desembocar no minimalismo.


É possível pensar em Rothko como uma espécie de Mondrian sem geometria, já que os contornos entre os campos de cores não são tão precisos. Certamente o que vai interessar ao trabalho dele é uma certa pesquisa de cores, trabalhando com determinados contrastes e inclusive com paisagens monocromáticas (seus quadros geralmente são de grandes escalas físicas, o que imagino que cause uma interessante experiência para o espectador da obra na relação do olhar com os grandes campos de cores). Na falta de precisão dos contornos, nos tons imprecisos e na flutuação das cores sobre a tela, certamente podemos ver uma enorme dimensão e preocupação espiritual na obra de Rothko, e sua tendência para a experiência trágica e para os mitos (além do vazio espiritual do homem) faz com que pensemos em uma arte que opere também por catarse, embora seja uma arte de movimentação de cores e não uma representação figurativa. Os sentimentos possíveis através do impacto pelas cores de Mark Rothko são muitos e são cores que já carregam em sua disposição a questão subjetiva.


Chegamos então ao suicídio de Mark Rothko. Sim, ele se matou, assim como tantas outras pessoas se mataram. Mas ficam questões. Isso se incorpora mesmo na obra? A dimensão espiritual e ao mesmo tempo trágica de sua pintura se desloca ou se concretiza no suicídio? O suicídio realmente importa? Há só a alegria das cores nos quadros de Rothko? Há só o pobre coitado que se matou nos quadros de Rothko? Qual é a generosidade dos nossos olhares enquanto apreciadores? Qual é a consciência sobre o assunto das nossas mentes enquanto apreciadores? A vida e a obra são coisas separadas? A biografia de um artista é uma mera curiosidade? Faz algum sentido explicarmos um fato estético pela biografia de seu criador? Arte é mímesis, mas de qual mímesis estamos falando? Quais são as fronteiras entre as cores?


São muitas perguntas, mas Mark Rothko disse: “Silence is so accurate”.


1 comentários:

Carolina* disse...

Eu falei pra você que tinha esquecido de olhar teu blog, então você disse: "Não, não olha, não." - e eu não esqueci, lembrei do nome e vim.
Vim e decidi que ia passar secretamente, não deixaria comentário nem nada. Mas ah, seu blog é digno de comentar...
E você, vive me dizendo que não queria fazer nada, nada, nada, me veio na cabeça agora a tua imagem associada com a de um jornalista, porque criticar você sabe muito e muito bem.

ps: você daria o cu para ver o Dylan e eu para ver o York, numa boa... eu daria sim! Hahahaha

Até breve!